Acústica em espaços culturais e museus: experiência sensorial e narrativa sonora

Entrar em um museu é, quase sempre, descrito como uma experiência visual. Observamos obras, objetos, cores, luz, arquitetura e percursos. Mas uma outra camada acompanha toda a visita, mesmo quando não prestamos atenção nela: o som também constrói a maneira como percebemos e interpretamos um espaço cultural. Passos sobre diferentes pisos, conversas distantes, vozes de mediadores, instalações audiovisuais, equipamentos, sons externos e até os intervalos de silêncio formam uma paisagem sonora que interfere na experiência. Nesse contexto, projetar a acústica de um museu não significa simplesmente torná-lo silencioso, mas compreender quais sons devem permanecer, quais precisam ser controlados e quais podem fazer parte da própria narrativa do espaço.
Essa mudança de olhar aproxima a acústica do conceito de soundscape, ou paisagem sonora, no qual o ambiente sonoro é compreendido não apenas pelos seus níveis físicos, mas também pela maneira como é percebido pelas pessoas dentro de determinado contexto. Orhan e Yilmazer (2021), ao estudarem a percepção dos visitantes em dois museus na Turquia, observaram justamente a relação entre o ambiente construído, as expectativas do público e a percepção dos sons presentes no espaço. Isso ajuda a explicar por que um mesmo som pode ser considerado incômodo em determinada situação e absolutamente coerente em outra. Uma boa experiência acústica não depende necessariamente da ausência de sons, mas da coerência entre som, espaço, conteúdo e expectativa.
Essa relação se torna ainda mais interessante quando o som deixa de ser consequência do espaço e passa a fazer parte da exposição. Áudios históricos, depoimentos, música, vídeos e instalações interativas podem ampliar a narrativa e estabelecer conexões que uma experiência exclusivamente visual dificilmente alcançaria. Bubaris (2014) discute justamente essa transformação do som em elemento orgânico das exposições contemporâneas, associado à participação e à experiência do visitante. O problema surge quando não existe uma estratégia acústica: o áudio de uma instalação invade a exposição vizinha, uma narração perde inteligibilidade diante das conversas do público ou uma sala excessivamente reverberante espalha informações que deveriam permanecer espacialmente delimitadas. Nesses casos, o problema não é haver som. É não existir uma hierarquia sonora.
Um dos exemplos mais marcantes dessa relação entre arquitetura, som e narrativa está no Museu Judaico de Berlim, projetado por Daniel Libeskind. No Memory Void, um dos vazios simbólicos do edifício, encontra-se Shalekhet (Fallen Leaves), instalação do artista Menashe Kadishman composta por mais de 10.000 rostos com bocas abertas recortados em pesadas placas de ferro e espalhados pelo piso. Ao caminhar sobre elas, o visitante movimenta as peças e produz inevitavelmente sons metálicos duros e irregulares. Os rostos remetem às vítimas da guerra e da violência, enquanto a experiência de pisar sobre essas faces pode gerar uma sensação profundamente desconfortável. Nesse caso, o desconforto sonoro não representa uma falha: ele participa intencionalmente da experiência emocional e da construção da memória. O som dos próprios passos transforma o visitante de observador em participante da narrativa. Aquilo que normalmente tentaríamos controlar em um projeto acústico como impacto, reverberação, ruído e incômodo, adquire significado porque está integrado à mensagem daquele espaço.
Mas nem todo som presente em um museu é intencional. A própria movimentação dos visitantes modifica continuamente o ambiente acústico. Em exposições muito frequentadas, quanto mais pessoas conversam, maior tende a ser o nível sonoro e, progressivamente, as próprias pessoas elevam a voz para continuarem sendo compreendidas. Astolfi et al. (2020), ao desenvolverem um modelo para prever o ruído humano em museus de alta visitação, encontraram uma inclinação do efeito Lombard de aproximadamente 0,4 dB/dB. Em outras palavras, existe um processo de retroalimentação: o ambiente fica mais ruidoso e as pessoas passam a falar mais alto, contribuindo novamente para o aumento do ruído. Isso mostra que lotação, fluxo, tempo de permanência e distribuição dos visitantes não são apenas questões museográficas ou operacionais. Também são variáveis acústicas de projeto.
Há, porém, outra possibilidade: em vez de trabalhar somente para eliminar sons indesejáveis, podemos utilizar o próprio som para organizar perceptivamente uma exposição. Bem et al. (2025) investigaram essa hipótese utilizando registros de 16 exposições em cinco museus, reproduzidos em um ambiente audiovisual com tela panorâmica de 360° e sistema de oito canais. Vinte e três participantes experimentaram diferentes cenários sonoros e, em 58% das avaliações, preferiram paisagens sonoras coerentes com o contexto da exposição. Os sons contextualizados também apresentaram resultados favoráveis relacionados ao foco, ao envolvimento e à sensação de imersão. O dado traz uma perspectiva particularmente interessante para a arquitetura: o som pode deixar de ser tratado apenas como interferência e passar a funcionar como matéria de projeto.
Projetar dessa forma exige uma visão muito mais integrada da acústica. Percursos, proximidade entre exposições, materiais, volumetria, divisórias, portas, forros, sistemas audiovisuais e até a localização das áreas de permanência precisam ser considerados em conjunto. Salas destinadas à contemplação podem pedir maior controle de ruído e reverberação; espaços educativos precisam favorecer a comunicação oral; instalações imersivas podem exigir independência acústica em relação às galerias vizinhas; recepções, cafés, lojas e áreas de circulação possuem outras dinâmicas sonoras. Em edifícios históricos, o desafio é ainda maior, porque grandes volumes, superfícies rígidas e limitações de intervenção frequentemente restringem soluções convencionais. Não existe, portanto, uma única “acústica de museu”. Existem diferentes atmosferas sonoras convivendo dentro de uma mesma experiência cultural.
Talvez esteja justamente aí uma das dimensões mais interessantes da acústica aplicada aos espaços culturais. Há momentos em que ela deve praticamente desaparecer, permitindo contemplação, concentração e compreensão. Em outros, pode conduzir percursos, criar atmosferas, reforçar uma memória ou até provocar deliberadamente desconforto, como acontece no Museu Judaico de Berlim. O projeto acústico deixa, então, de ser apenas uma ferramenta de correção do espaço para participar daquilo que o espaço pretende comunicar. Em um museu, silêncio absoluto nem sempre conta a melhor história. O verdadeiro desafio está em projetar o que merece ser ouvido e também aquilo que não deveria disputar a nossa atenção. A narrativa museográfica acontece diante dos olhos, mas uma parte importante dela também é construída pelo ouvido.
Referências bibliográficas
ASTOLFI, A. et al. Acoustic comfort in highly attended museums: a dynamical model. Building and Environment, v. 183, 107176, 2020. DOI: 10.1016/j.buildenv.2020.107176.
BEM, M. J.; CHABOT, S. R. V.; BROOKS, V.; BRAASCH, J. Enhancing museum experiences: using immersive environments to evaluate soundscape preferences. The Journal of the Acoustical Society of America, v. 157, n. 2, p. 1097–1108, 2025. DOI: 10.1121/10.0035832.
BUBARIS, N. Sound in museums – museums in sound. Museum Management and Curatorship, v. 29, n. 4, p. 391–402, 2014. DOI: 10.1080/09647775.2014.934049.
JEWISH MUSEUM BERLIN. Shalekhet – Fallen Leaves: an installation by Menashe Kadishman. Berlin: Jewish Museum Berlin. Disponível no site oficial do Jewish Museum Berlin. Acesso em: 17 set. 2026.
ORHAN, C.; YILMAZER, S. Harmony of context and the built environment: soundscapes in museum environments via GT. Applied Acoustics, v. 173, 107709, 2021. DOI: 10.1016/j.apacoust.2020.107709.




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