top of page

Arquitetura sensorial: o som como elemento de projeto

Juliana Barros
13 de jul.
4 min de leitura
Restaurante Largar Tragaluz Diamon Mall - Acústica JBARROS
Restaurante Largar Tragaluz Diamon Mall - Acústica JBARROS

Durante décadas, a arquitetura foi concebida predominantemente para ser vista. Fachadas, volumetrias, iluminação e composição visual assumiram o protagonismo das decisões de projeto, enquanto o som permaneceu, muitas vezes, restrito às etapas finais da obra, normalmente associado apenas ao tratamento de problemas de ruído. Entretanto, a arquitetura contemporânea caminha para uma abordagem mais ampla: a arquitetura sensorial, que reconhece que a experiência humana é construída simultaneamente pela visão, audição, tato, olfato e percepção espacial. Nesse contexto, o som deixa de ser um elemento corretivo e passa a ser um componente ativo do processo projetual, capaz de definir atmosferas, orientar comportamentos e fortalecer a identidade dos ambientes. Como destaca Pallasmaa (2019), a arquitetura deve ser compreendida como uma experiência multissensorial e incorporada, na qual todos os sentidos participam da construção da percepção do espaço.


Essa mudança de paradigma encontra respaldo nas pesquisas sobre percepção ambiental. Estudos em neurociência indicam que a integração entre os diferentes estímulos sensoriais ocorre continuamente no cérebro, tornando impossível avaliar isoladamente a influência de um único sentido sobre a experiência espacial. Spence (2020) demonstra que sons podem modificar a percepção de conforto térmico, luminosidade, segurança e até mesmo da dimensão aparente de um ambiente, fenômeno conhecido como integração multissensorial. Em outras palavras, um espaço pode parecer mais acolhedor, sofisticado ou tranquilo sem qualquer alteração física em sua geometria, apenas pela forma como sua paisagem sonora é construída (SPENCE, 2020).


Essa compreensão deu origem ao conceito de aural architecture (arquitetura auditiva), desenvolvido por Blesser e Salter (2007), segundo o qual os edifícios possuem uma identidade sonora própria, formada pela combinação entre sua geometria, materiais, proporções e atividades desenvolvidas. Assim como reconhecemos visualmente uma catedral, um museu ou uma biblioteca, também somos capazes de identificar esses espaços apenas pelo modo como eles "soam". A reverberação, as reflexões sonoras, a inteligibilidade da fala e até mesmo o silêncio passam a constituir atributos arquitetônicos tão relevantes quanto textura, iluminação ou composição formal (BLESSER; SALTER, 2007).


Na prática, isso significa que o projeto acústico não deve buscar apenas reduzir níveis de pressão sonora, mas desenhar experiências auditivas coerentes com o propósito do ambiente. Em um restaurante, por exemplo, um determinado nível de energia sonora pode transmitir dinamismo e estimular maior permanência dos clientes, enquanto em hospitais, bibliotecas ou ambientes corporativos de concentração, a redução da reverberação e da interferência sonora torna-se essencial para diminuir a fadiga cognitiva e melhorar o desempenho das atividades. A norma internacional ISO 12913, dedicada ao conceito de paisagem sonora (soundscape), reforça exatamente essa mudança de visão ao considerar que a qualidade acústica depende da forma como o ambiente é percebido pelas pessoas, e não apenas dos níveis medidos em decibéis (KANG et al., 2016).


Os benefícios dessa abordagem já começam a ser quantificados. Diversos estudos demonstram que ambientes acusticamente agradáveis podem reduzir significativamente os níveis de estresse fisiológico, melhorar a percepção de bem-estar e favorecer processos cognitivos relacionados à atenção e à memória. Ao mesmo tempo, pesquisas sobre ruído ambiental mostram que exposições prolongadas acima de aproximadamente 55 dB(A), durante o período diurno, já podem produzir impactos negativos na qualidade de vida, enquanto ambientes internos destinados à concentração frequentemente requerem níveis inferiores a 40 dB(A), dependendo da atividade desenvolvida. Esses números evidenciam que projetar o som não significa necessariamente criar ambientes silenciosos, mas construir condições acústicas compatíveis com cada experiência desejada.


Outro aspecto ainda pouco explorado na arquitetura é o papel do som na construção da memória afetiva dos espaços. Sons específicos tornam-se marcadores emocionais capazes de reforçar identidade, pertencimento e reconhecimento espacial. A reverberação característica de uma igreja histórica, o som difuso de um jardim, o ambiente acústico de uma biblioteca ou mesmo o silêncio cuidadosamente preservado em um museu fazem parte da experiência arquitetônica tanto quanto sua materialidade. Como observam Blesser e Salter (2007), cada edifício comunica sua função também por meio de sua assinatura sonora, criando relações simbólicas que permanecem registradas na memória dos usuários muito depois da visita ao local.


Essa perspectiva amplia significativamente o papel da consultoria acústica. O profissional deixa de atuar apenas na solução de problemas de isolamento ou reverberação para participar das decisões estratégicas do projeto desde as etapas iniciais. Materiais, volumetria, pé-direito, geometria das superfícies, layout, fluxos de pessoas e até sistemas de climatização passam a ser analisados como elementos capazes de construir uma narrativa sensorial coerente. O resultado não é apenas um ambiente tecnicamente eficiente, mas um espaço cuja identidade é percebida de forma intuitiva pelos usuários, fortalecendo conforto, funcionalidade e valor percebido.


A arquitetura sensorial representa, portanto, uma evolução natural da própria arquitetura contemporânea. Em um cenário em que experiência do usuário, bem-estar e desempenho ambiental assumem crescente importância, o som deixa definitivamente de ocupar um papel secundário para tornar-se matéria-prima do projeto. Projetar espaços passa a significar desenhar também aquilo que será ouvido, sentido e lembrado. Afinal, uma arquitetura verdadeiramente completa não é apenas aquela que impressiona aos olhos, mas aquela que consegue transformar a experiência humana por meio de todos os sentidos.


Referências bibliográficas
  • BLESSER, Barry; SALTER, Linda-Ruth. Spaces Speak, Are You Listening? Experiencing Aural Architecture. Cambridge: MIT Press, 2007.

  • KANG, Jian et al. Ten questions on the soundscapes of the built environment. Building and Environment, v. 108, p. 284–294, 2016.

  • PALLASMAA, Juhani. Design for Sensory Reality: From Visuality to Existential Experience. Architectural Design, v. 89, n. 6, p. 22–27, 2019.

  • SPENCE, Charles. Senses of place: architectural design for the multisensory mind. Cognitive Research: Principles and Implications, v. 5, n. 46, 2020.

 

Comentários


bottom of page