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O fenômeno do ruído de flanco: causas e implicações no desempenho acústico

Juliana Barros
11 de mai.
4 min de leitura
LOG BH - Acústica JBARROS
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O fenômeno do ruído de flanco representa um dos maiores desafios da acústica de edificações contemporânea, especialmente em construções com sistemas leves, fachadas envidraçadas e estruturas altamente conectadas. Diferentemente da transmissão sonora direta, na qual o som atravessa apenas o elemento separador entre dois ambientes, o ruído de flanco ocorre quando a energia sonora encontra caminhos alternativos para se propagar através de elementos adjacentes da edificação, como lajes, paredes laterais, fachadas, forros, pisos elevados, shafts, instalações prediais e até mesmo pequenas descontinuidades construtivas. Em muitos casos, mesmo quando uma parede apresenta excelente desempenho acústico em laboratório, o isolamento efetivo obtido em campo torna-se significativamente inferior devido à presença dessas transmissões indiretas. Segundo Poblet-Puig (2026), o fenômeno das transmissões de flanco está diretamente relacionado à propagação de vibrações estruturais através das conexões entre os elementos construtivos, sendo particularmente crítico em edificações com estruturas leves e sistemas industrializados.


Do ponto de vista físico, o ruído de flanco ocorre porque o som, ao atingir uma superfície, gera vibrações que podem se espalhar pela estrutura da edificação e irradiar novamente em outros ambientes. Isso significa que não basta apenas projetar uma parede com alto índice de isolamento acústico; é necessário compreender o comportamento global do edifício como um sistema vibroacústico integrado. Estudos de Craik (2001) demonstraram que, em determinadas situações, os caminhos de flanco podem contribuir mais para a transmissão sonora do que o próprio caminho direto. Essa constatação alterou significativamente a forma como os projetos acústicos passaram a ser concebidos, principalmente em edifícios corporativos, hotéis, hospitais e empreendimentos residenciais multifamiliares, nos quais a privacidade sonora é um requisito essencial. Em edifícios modernos, a presença de fachadas leves, divisórias drywall, pisos flutuantes mal executados e sistemas compartilhados de instalações aumenta ainda mais a relevância desse fenômeno.


As causas do ruído de flanco estão frequentemente associadas a erros de concepção arquitetônica, incompatibilização entre disciplinas e falhas executivas. Entre os exemplos mais comuns estão paredes divisórias interrompidas antes da laje estrutural, caixas elétricas instaladas em posições coincidentes entre ambientes, perfis metálicos rigidamente conectados, ausência de desacoplamento estrutural, passagens inadequadas de instalações e encontros rígidos entre elementos construtivos. Além disso, conexões entre sistemas leves e pesados tendem a apresentar comportamento acústico particularmente complexo. De acordo com Wójtowicz, Kamisiński e Rubacha (2026), as conexões entre elementos massivos e sistemas leves podem gerar perdas significativas no desempenho acústico final, sobretudo quando não há detalhamento adequado das juntas e interfaces construtivas. Isso explica por que muitos empreendimentos apresentam reclamações relacionadas à transmissão sonora mesmo após a adoção de materiais considerados “acústicos”. Em muitos casos, o problema não está no material em si, mas na maneira como os elementos estão conectados dentro do conjunto construtivo.


Outro aspecto relevante é que o ruído de flanco possui forte dependência das frequências sonoras envolvidas e da geometria da edificação. Baixas frequências, por exemplo, apresentam maior capacidade de propagação estrutural, tornando-se especialmente difíceis de controlar. Ambientes corporativos com grandes vãos, estruturas metálicas e fachadas contínuas frequentemente apresentam elevada suscetibilidade às transmissões indiretas. Martello et al. (2015), ao analisarem fachadas curtain wall associadas a divisórias leves, verificaram que as junções entre fachada e paredes internas podem se tornar importantes vias de transmissão sonora entre salas adjacentes. Da mesma forma, pesquisas do National Research Council Canada (2007) apontam que pisos, tetos e paredes laterais podem atuar conjuntamente como caminhos secundários de propagação sonora, especialmente em construções em wood frame e sistemas leves industrializados. Isso evidencia que o desempenho acústico de uma edificação não depende apenas das características isoladas dos materiais, mas da interação entre todos os elementos do sistema construtivo.


Nesse contexto, o controle do ruído de flanco exige uma abordagem integrada entre arquitetura, acústica e engenharia construtiva desde as etapas iniciais do projeto. A simples especificação de materiais com elevados índices laboratoriais de isolamento não garante desempenho real em campo. É fundamental considerar cuidadosamente a setorização dos ambientes, o detalhamento das interfaces construtivas, os desacoplamentos estruturais, o posicionamento de instalações prediais e o tratamento adequado das junções entre sistemas. Normas internacionais como a ISO 12354 passaram a incorporar metodologias específicas para estimativa das transmissões indiretas justamente pela importância crescente desse fenômeno nas edificações contemporâneas (POBLET-PUIG, 2026). Dessa forma, compreender o ruído de flanco significa compreender que a acústica de uma edificação vai muito além da escolha de materiais: trata-se de entender o edifício como um sistema integrado de propagação sonora, no qual cada detalhe construtivo pode influenciar diretamente a qualidade acústica final dos espaços.


Referências Bibliográficas

  • CRAIK, R. J. M. Contribution of long flanking paths to sound transmission in buildings. Applied Acoustics, v. 62, n. 1, p. 29–46, 2001.

  • MARTELLO, N. Z.; SECCHI, S.; FAUSTI, P. et al. Analysis of direct and flanking sound transmission between rooms with curtain wall facades. Energy Procedia, v. 78, p. 1113–1118, 2015.

  • NATIONAL RESEARCH COUNCIL CANADA. Guide for flanking sound transmission in wood framed buildings. Proceedings of the 14th International Congress on Sound and Vibration, 2007.

  • POBLET-PUIG, J. Review of modelling and prediction methods for flanking transmissions. Acoustics, v. 8, n. 1, 2026.

  • WÓJTOWICZ, A.; KAMISIŃSKI, T.; RUBACHA, J. Flanking sound transmission in massive-lightweight connections. Archives of Acoustics, 2026.

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